Saúde da população negra e lugar de fala são abordados em evento na Elese

Publicada: 14/07/2022 às 12:25

14/7/2022

Por Ethiene Fonseca/Agência de Notícias Alese

A Escola do Legislativo Deputado João de Seixas Dória (Elese) promoveu nesta quinta-feira (14) mais uma edição do Quintas Negras, projeto voltado ao debate de questões raciais em seus mais diferentes aspectos. Uma das palestras realizadas hoje ficou a cargo da professora Laura Cecília Fagundes, que é a primeira mulher negra com doutorado em Direito em Sergipe.

“É um caminho bastante desafiador tendo em vista justamente essas sinuosidades, esses meandros que nós encontramos pelo caminho. A sociedade ainda não tem o costume, até mesmo o preparo para nos recepcionar. A gente percebe, onde quer que a gente fale, onde quer que tenhamos espaço, que são poucos. Eu percebo até que quando eu mesma vou atrás desses espaços, eu encontro muita resistência. Então, mesmo diante dessas resistências, eu preciso peitar. É bem nesse sentido mesmo: peitar. Hoje, eu tenho voz e tenho vez. Tenho que fazer por quem não tem. A gente sabe que tem pessoas que vão passar pela vida e infelizmente não conquistarão esse espaço. Diante disso é que eu me faço, que eu encontro força, que eu me fortaleço”, relatou a professora.

Professor Roberto Lacerda, palestrante

Quem também palestrou na Elese na manhã desta quinta-feira foi o professor Roberto Lacerda, do Departamento de Educação em Saúde da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Campus Lagarto. Na ocasião, ele apresentou dados levantados por pesquisas sobre a situação da saúde da população negra em Sergipe.

“A gente falou um pouquinho sobre as disparidades raciais em saúde. As principais causas de mortalidade na população negra em comparativo à população branca, ver de que forma, tanto em relação ao tipo de causa, como também causas semelhantes. Temos, por exemplo, a mortalidade materna que, no ano de 2020, em Sergipe, enquanto morreram três mulheres brancas, morreram 30 mulheres negras. É um número 10 vezes maior. É uma oportunidade para alertar os participantes sobre a importância da temática”, declarou o professor Roberto.

Palestras

O evento contou com a participação de várias pessoas que atuam diretamente na causa racial, como Wesley Santana, que é da Associação Nacional da Advocacia Negra. Ele destacou a relevância de se falar sobre saúde, principalmente nesse período de Pandemia, que tem afetado a vida das pessoas em todo o mundo, em especial da população negra.

“A temática é muito pertinente, principalmente no contexto que a gente vive, dentro de um cenário pandêmico, que a gente está ainda convivendo, sobretudo quando se trata da população negra. A gente sabe que a população negra ainda é a mais vulnerável. A gente sabe que tem doenças que a população negra está mais sujeita a ser acometida. Nesse período pandêmico foi relatado por meio de pesquisas realizadas que essa população foi a que mais sofreu nesse período. A gente trazer essa temática aqui em um momento como esse para que a população tenha mais conhecimento e se insira nesse contexto é de suma importância”, defendeu o advogado.

A presidente da Fundação de Cultura e Arte Aperipê de Sergipe (Funcap), Conceição Vieira, também prestigiou o Quintas Negras. Ela falou sobre os aspectos históricos que estão diretamente atrelados à pauta racial no Brasil, mencionando os atos de violência contra a população negra que têm sido noticiados pela imprensa.

“Sabemos que essa é uma questão histórica não só no Brasil, mas em outras partes do mundo também. Temos visto recentemente como tem aparentemente piorado. Estão mais intensificados esses atos de violência na nossa sociedade. Mais especificamente, se tratando de Brasil, acho que nós estamos vivendo um momento histórico, político e administrativo que não há cuidado para com os segmentos que são fragilizados na nossa sociedade”, comentou a presidente da Funcap.

Professora Laura Cecília, palestrante

As palestras foram acompanhadas atentamente pelos alunos do Colégio Estadual John Kennedy, que fica em Aracaju. A estudante Cassandra Silva elogiou o projeto Quintas Negras, falando sobre os impactos que o racismo tem na vida das pessoas negras. “O evento é um espaço bom porque tem muitos problemas de saúde com as pessoas negras, elas não têm o mesmo acesso à saúde como as pessoas brancas. É preciso falar sobre isso pois tem muitas pessoas que sofrem racismo e eu sei como isso dói, pois muitas pessoas às vezes entram em depressão por conta disso”, afirmou.

A iniciativa da Elese também foi vista com bons olhos pela estudante Lauane Pereira Guimarães dos Santos. Ela falou sobre as dificuldades em se lidar com o racismo no Brasil e sobre a importância de debates como esse promovido pela Escola do Legislativo. “Hoje em dia vemos muito preconceito com pessoas negras e está cada vez mais difícil de lidar com pessoas racistas. Esse espaço de discussão é muito importante para nós que somos mulheres negras”, ponderou.

Quintas Negras

De acordo com a diretora da Elese, Isabela Mazza, o projeto Quintas Negras está em ação há quatro anos, desde 2019, trazendo temáticas sociais e raciais de relevância para a população sergipana. “Há quatro anos nós temos o projeto Quintas Negras. A gente vem trabalhando esse tema, que é de extrema relevância. A Escola do Legislativo sempre levantando esses temas e assuntos que precisam ser falados. Então, há quatro anos a gente vem falando sobre isso, levantando essa história do movimento, falando sobre temas importantes”, explicou.

A idealizadora do Quintas Negras, Vera Vilar, explica que o projeto busca ser um espaço para que pessoas negras de diferentes áreas possam trazer as suas vivências sobre temas voltados à questão racial. “Eu acredito que é o único espaço público que tem um projeto que permite que se discuta a temática racial. Vemos o racismo tão evidente na sociedade, a morte de negros e negras, é importante que a gente possa discutir isso. É um projeto que acontece mensalmente. A gente traz pessoas de todo o lugar, desde a parte acadêmica, como também lideranças do movimento negro, professores, qualquer pessoa que possa discutir temáticas dentro da questão racial”, finalizou.

Fotos: Joel Luiz

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