“Com as mãos no bolso eu o aguardo ansiosa. Os passos vagarosos, entretanto firmes ornamentam a entrada do Museu da Gente Sergipana. Em minha direção, ele caminha com sorriso nos olhos e orgulhoso de seus 88 anos de pura lucidez. Cumprimenta-me com sua mão direita, para e diz: – É você é?, Indaga ao perceber que sou a mulher que sempre o cumprimenta nas festas da cidade, das antigas gerações (Risos). Do meu nome complicado, não sabia, e não me relacionou à mesma mulher do telefone, que agendou uma breve prosa curiosa sobre uma de nossas paixões: Aracaju”.  Tíffany Tavares

 

A capital sergipana Aracaju, completa nesta quinta-feira, 17 de março, seus 161 anos. A sua história está fortemente relacionada à da cidade de São Cristóvão, pois era esta a antiga capital da Capitania de Sergipe, atual estado de Sergipe. Foi a partir da decisão de mudança da cidade que abrigaria a capital provincial que Aracaju pode existir e cresceu.

Praça Fausto Cardoso. Arquivo Murillo Melins

Praça Fausto Cardoso. Arquivo Murillo Melins

Fundada em 1855, foi a primeira capital planejada de um estado brasileiro; seu formato remete a um tabuleiro de xadrez. Todas as ruas foram projetadas geometricamente, como um tabuleiro de xadrez, para desembocarem no rio Sergipe. Até então, as cidades existentes antes do século XVII adaptavam-se às respectivas condições topográficas naturais, estabelecendo uma irregularidade no panorama urbano. O engenheiro Pirro contrapôs essa irregularidade e Aracaju foi, no Brasil, um dos primeiros exemplos de tal tendência geométrica.

E como presente aos aracajuanos, tivemos uma breve conversa com o pesquisador, escritor e memorialista Murillo Melins.

 Mas quem é ele?

O historiador Murillo Melins. Foto Tiffany Tavares

O historiador Murillo Melins. Foto Tiffany Tavares

Murilo Mellins nasceu em Neópolis antiga Vila Nova em 22 de outubro de 1928, filho do saudoso Mario Mellins que dentre outras coisas foi intendente de Neópolis (antiga Vila Nova) uma pessoa simples, de um grande conhecimento dos fatos que marcaram a historia da capital. Alguns chamam de memorialista, outros de pesquisador, outros de guardião da historia de Sergipe, sempre puxando das lembranças a memória política e cultura da nossa gente.

Trabalhou na Prefeitura Municipal de Aracaju, em algumas funções dos Correios, e atualmente com sua vida pacata de aposentado, vai escrevendo, contando e cantando a história sergipana nos seus livros de memória.

Com romantismo descreve com maestria, Aracaju das décadas de 40 e 50. O amigo e historiador Luis Antônio Barreto, quando em vida, dizia, “Mellins tem com Aracaju uma intimidade cumpliciada, como poucos, e ambos, o escritor e a cidade, guardam de cada um muitos segredos”.

O memorialista nos recebeu com simplicidade e fidalguia no Café da Gente, no Museu da Gente Sergipana, na tarde do dia 15 de março. Em uma prosa informal, viajamos por uma nostálgica Aracaju, que só ele rememora com riqueza de detalhes.

“Eu sou das margens do São Francisco, vivi em Neópolis até os seis anos de idade. Da minha casa via o rio caudaloso, majestoso, despoluído e quando fui morar em Boquim eu olhava na janela e via a movimentação das máquinas, os ferroviários com as lanternas iluminando as ruas, os desvios. Nessa noite não dormi, empolgado com aquela dinâmica, pensando no Rio São Francisco, nos trens de ferro. Tudo aquilo era novo e me apaixonei”, relembrou Melins.

Ele afirma que ao chegar a Aracaju, já tinha essa memória de Neópolis e Boquim, para sua surpresa foi recebido pelas belezas do Rio Sergipe, pelos os trens de ferro e os bondinhos. “Aracaju era cidade calma, provinciana de 60 mil habitantes, ordeira, não havia violência, o único barulho que ouvíamos era o das águas do mar ou do rio”, descreve.

De acordo com o memorialista Murillo Melins, Aracaju teve sua origem no Bairro Industrial. “Como era uma colônia de pescadores, não há sentido afirmar que a capital nasceu na Colina do Santo Antônio, e sim na beira do mar”, resume.

Aracaju antiga. Foto: Blog Coisas de São Cristovão

“Aracaju cresceu muito até os anos 50 a 60 era uma cidade de 70 mil habitantes e hoje tem mais de 600 mil. Era visível o quadrado de Pirro, limitando-se na Avenida Coelho e Campos ao norte, a região do Clube do Cotinguiba ao sul, a rua da frente ao leste e a Rua Estância, no Oeste”, conta.

As retretas, as feirinhas de natal com quermesse, o São João com as fogueiras nas ruas, o estalar dos fogos…são lembranças que acompanham o historiador até os dias de hoje. “Depois fui crescendo e passei a frequentar a biblioteca pública, a ler muito, ir aos bares da época, comecei a conviver com filósofos, com poetas, personalidades e artistas. Todos nos conhecíamos, as famílias conheciam umas as outras. Aracaju é minha paixão”, declara.

Murillo Melins confessa que começou a escrever sobre Aracaju, porque segundo ele, a memória da capital estava acabando, apenas Mário Cabral fazia isso em 1940 e de lá pra cá, ninguém escreveu especificamente sobre nossa capital. “Percebi que a nossa história estava sendo esquecida. Daí pensei: Não vou deixá-la morrer”, finalizou.

Livros de Murillo Melins

Em 2007, lançou seu primeiro livro ‘Aracaju romântica que vi e vivi’, hoje na sua 4ª edição. O livro é um precioso e apaixonado relato repleto de histórias sobre figuras populares, festas, ‘causos’ políticos e a evolução da capital sergipana nas décadas de 40 e 50.

Em dezembro de 2015, Melins lançou o seu novo livro de memórias “Aracaju Pitoresco e Lendário”. Uma compilação de crônicas que ele publicou nos jornais ao longo dos anos. Contém histórias que ocorreram no início do século XX, como a chegada da energia elétrica, do bonde e do calçamento da cidade, mas também relata a polêmica da transferência da capital de São Cristóvão para Aracaju, fato ocorrido em 1855.

Por Tíffany Tavares – Agência Alese de Notícias, com informações de Fontes da História de Sergipe.