No próximo dia 17 de março, a cidade de Aracaju celebra 171 anos de emancipação política, data que marca não apenas a criação da atual capital sergipana, mas também um momento decisivo para o desenvolvimento econômico, administrativo e institucional do estado de Sergipe. A história da capital está diretamente ligada à organização política da província e à consolidação do Poder Legislativo sergipano.

Quadro alegórico de Aracaju em 1855 – Cadastro de Sergipe 1933 / acervo Paulo Roberto Dantas Brandão.
Considerada hoje uma das capitais brasileiras com melhor qualidade de vida e conhecida por seu equilíbrio entre urbanização e natureza, Aracaju nasceu de uma decisão estratégica tomada no século XIX. Antes de sua fundação, a capital da província era a histórica cidade de São Cristóvão, quarta cidade mais antiga do Brasil e centro administrativo desde a emancipação de Sergipe.
Essa emancipação ocorreu em 8 de julho de 1820, quando Sergipe foi desmembrado da capitania da Bahia e elevado à condição de província do Império brasileiro. Durante os primeiros anos, São Cristóvão concentrou as funções políticas e administrativas, mas a distância do litoral e as dificuldades logísticas para o escoamento da produção agrícola passaram a representar um obstáculo para o crescimento econômico.
A fundação da nova capital
Foi nesse contexto que o então presidente da província, Inácio Joaquim Barbosa, liderou o processo de transferência da capital. Atendendo às demandas econômicas da época, sobretudo dos produtores de açúcar, ele defendeu a criação de uma nova cidade próxima ao litoral, com melhores condições portuárias e de navegação.
Assim, em 17 de março de 1855, foi sancionada a Resolução nº 413, aprovada pela Assembleia Legislativa Provincial e sancionada por Inácio Joaquim Barbosa, que elevou o Povoado de Santo Antônio do Aracaju à categoria de cidade, com a denominação de Cidade do Aracaju, e transferiu oficialmente a capital da província de São Cristóvão para Aracaju, incluindo as atividades da Assembleia Legislativa Provincial.
Pça. Inácio Barbosa, na Av. Ivo do Prado, preserva o obelisco em homenagem ao fundador da cidade — Foto: Ana Lícia Menezes (Prefeitura de Aracaju)
“Fica elevado à categoria de cidade o Povoado de Santo Antônio do Aracajú na Barra da Cotinguiba com a denominação de Cidade do Aracajú. (…) As reuniões da Assembleia Legislativa Provincial celebrar‑se‑ão desde já e d’ora em diante na mesma Cidade do Aracajú. (…) Fica transferida desde já da Cidade de São Cristóvão para a do Aracajú a Capital desta Província.”
O próprio nome Aracaju tem origem na língua tupi e significa “cajueiro dos papagaios”, referência à vegetação e à fauna características da região.
Inácio Joaquim Barbosa: obelisco e memória
Por ironia, Inácio Barbosa veio a falecer naquele mesmo ano, em 6 de outubro de 1855, na cidade de Estância, vítima da epidemia de Cólera, que matou milhares de pessoas em Sergipe. Seus restos mortais foram inicialmente sepultados em uma cripta nos fundos da Catedral Metropolitana de Aracaju. Posteriormente, foram transferidos para uma praça que existia junto ao Mercado Thales Ferraz. Hoje, seus despojos repousam na Praça Inácio Barbosa, na confluência da Avenida Rio Branco, da Travessa Getúlio Vargas e do início da Avenida Augusto Maynard, em um obelisco alusivo à sua personalidade, conservado pela Petrobras.
Uma das primeiras capitais planejadas do país
Aracaju também se destaca por sua concepção urbanística inovadora para a época. Diferentemente de muitas cidades brasileiras que cresceram de forma espontânea, a nova capital foi planejada. Seu traçado urbano foi organizado em linhas retas e quarteirões regulares, formando um desenho geométrico semelhante a um tabuleiro de xadrez. A única curva permitida foi a da avenida que margeia o rio, imposta pelo próprio presidente da província.
O projeto foi elaborado por uma comissão de engenheiros liderada por Sebastião Basílio Pirro. A construção da cidade, no entanto, representou um grande desafio técnico. Grande parte da área escolhida era formada por mangues, pântanos e terrenos alagadiços, o que exigiu intervenções para permitir a implantação das primeiras ruas, prédios públicos e residências.
O núcleo inicial da nova capital foi organizado a partir do plano urbano elaborado pelo engenheiro Sebastião Basílio Pirro, que estruturou as primeiras quadras em um traçado regular conhecido posteriormente como “Quadrado de Pirro”, área planejada em forma de tabuleiro de xadrez que concentrou as primeiras quadras urbanizadas de Aracaju e as principais repartições administrativas da província. Foi nesse espaço, nas proximidades de onde hoje se localiza a Praça Fausto Cardoso, que passaram a funcionar as primeiras estruturas do governo e também as atividades do Poder Legislativo, inicialmente em instalações provisórias. Apesar das dificuldades iniciais, Aracaju cresceu de forma ordenada e tornou-se, ao longo dos anos, o principal centro político, econômico e administrativo de Sergipe.
O Poder Legislativo acompanha a mudança da capital
A história da capital sergipana também está profundamente conectada com a trajetória do Poder Legislativo estadual. A instituição que hoje é conhecida como Assembleia Legislativa do Estado de Sergipe teve origem ainda no período provincial.
O Legislativo foi instituído em 1835, quando Sergipe passou a contar com sua Assembleia Provincial, criada após a reorganização política do Império. As primeiras sessões ocorreram no Convento de São Francisco, localizado em São Cristóvão, e posteriormente em um prédio conhecido como Casa de Balcão, vizinho ao antigo Palácio do Governo.
Com a transferência da capital para Aracaju em 1855, a Assembleia passou a funcionar nas proximidades da atual Praça Fausto Cardoso, área que se consolidou como o primeiro centro político e administrativo da nova capital. Posteriormente, o Parlamento sergipano ganhou sede própria no histórico Palácio Fausto Cardoso, construído entre 1868 e 1874, edifício que marcou por décadas a atividade legislativa do estado e que atualmente abriga a Escola do Legislativo.
Mais de um século depois, em 9 de maio de 1987, a Assembleia foi transferida para sua sede atual, o Palácio Governador João Alves Filho, localizado na Avenida Ivo do Prado, onde funciona até hoje.
Modernização e aproximação com a sociedade
Ao longo das últimas décadas, o Parlamento sergipano ampliou suas ações institucionais e mecanismos de transparência. Em 2003 foi criada a Escola do Legislativo João de Seixas Dória, voltada à formação cidadã e à capacitação técnica de servidores e da sociedade.
Outro marco importante foi a criação da TV Alese, em 2004, iniciativa que ampliou o acesso da população às atividades parlamentares. Desde 2017, o canal passou a operar em sinal aberto, reforçando a transparência das ações legislativas.
Uma capital que cresceu com Sergipe
Ao completar 171 anos de emancipação política, Aracaju reafirma seu papel como centro administrativo e econômico do estado, além de símbolo da modernização que marcou Sergipe ao longo do século XIX.
A transferência da capital representou uma decisão estratégica que redefiniu o desenvolvimento do território sergipano. Junto com a cidade, também se consolidaram instituições fundamentais para a democracia estadual, entre elas a Assembleia Legislativa, que segue atuando como espaço de debate, representação e construção das políticas públicas para a população sergipana. Mais de um século e meio depois, a história de Aracaju continua sendo também a história da evolução política e institucional de Sergipe.
Nesse percurso histórico, a capital sergipana transformou-se em um espaço de memória, cultura e participação cidadã. Suas praças, edifícios públicos e instituições preservam marcas do passado e testemunham as mudanças que moldaram a vida política e social do estado, reafirmando Aracaju como cenário central das decisões que influenciam o presente e projetam o futuro de Sergipe.
Com informações de: Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe; Stephanie Macedo / Agência de Notícias Alese; Armando Maynard / Blog Minha Terra é Sergipe; Portal F5News; Escritório de Artes Miguel Salles; Portal Rede Tupi.
Capa: Praça Fausto Cardoso, data não identificada, com destaque para o Palácio Fausto Cardoso, à esquerda, e para o Palácio-Museu Olímpio Campos, antiga sede do Governo do Estado. Arquivo do historiador e memorialista Murillo Melins. Fonte: Portal Infonet.




