A citricultura sergipana, duramente afetada nas duas últimas décadas por pragas como a ortézia, agora se depara com um problema ainda mais grave: a mosca negra (aleurocanthus woglum), que provoca estragos na produção e causa preocupação em produtores e nas autoridades sanitárias. Técnicos da Embrapa Tabuleiros Costeiros promoveram nesta terça-feira um debate com os parlamentares sobre a praga e mostraram, ainda, que os citricultores sergipanos têm outros desafios a superar.

 

O debate foi aberto pelo chefe-geral da Embrapa Tabuleiros Costeiros, Manoel Moacir Costa Macedo. Depois de traçar um perfil completo de atuação do órgão federal, destacando pesquisas importantes que estão em andamento na unidade de Sergipe, o dirigente da Embrapa disse que a colaboração poderia ser maior se fosse um órgão de assistência técnica, além do seu campo de atuação, a pesquisa. “Abrimos a Embrapa, que está à disposição de Sergipe. A mosca negra ultrapassa os nossos limites, e o de Sergipe também”, ressaltou.

“Quem perdeu área plantada (citricultura) até agora foi São Paulo. Sergipe teve aumento de área plantada”. A afirmação que surpreendeu os parlamentares foi do economista e analista em gestão estratégica da Embrapa Tabuleiros Costeiros, Márcio Rogers Melo de Almeida, que apresentou resultado de uma pesquisa elaborada com o objetivo de mostrar o perfil da citricultura do Estado, revelando também o perfil dos produtores.

De acordo com a pesquisa, Bahia e Sergipe possuem propriedades com área plantada de dois a dez hectares. Em São Paulo, os números são maiores, de dez a cinquenta hectares por faixa de plantio. “Por isso os problemas são atacados de forma diferenciada, porque a produção é diferente nas duas áreas. E mesmo sofrendo, o produtor (em Sergipe) não migrou. Em São Paulo os produtores trocaram a laranja pela cana-de-açúcar”, observou. Segundo Márcio Rogers, Sergipe tem problemas com o uso da tecnologia e também com o manejo.

Ainda em sua exposição, o economista alertou para o fato do produtor de citros em Sergipe estar envelhecendo e o jovem trocando o campo pela cidade. “O jovem ou vende a propriedade ou migra (troca a cultura). Na Europa há uma política de atrair o jovem para a agricultura, para o campo. Outro dado é a baixa escolaridade dos produtores”, emendou. Márcio afirmou ainda que a ortézia ainda preocupa, era a principal queixa de grande parcela dos produtores no ano passado, mas lembrou que o cenário está mudando. “A mosca negra é mais difícil de ser controlada e se alastra mais rapidamente”.

Chefe de Pesquisas da Embrapa, Marcelo Fernandes disse que para aumentar o rendimento da produção é preciso cuidar das mudas e executar enxertos de citros. A Embrapa, assegura Marcelo, tem feito experimentos na unidade do município de Umbaúba (campo experimental) para melhorar a produtividade dos pomares. Disse ainda que o desenvolvimento de um bioinseticida para o controle da mosca negra é importante, e que há pragas mais severas (em outros estados) que ainda não atingiram os pomares de Sergipe. Para ele, há tecnologia para o controle da praga, mas o assunto precisa ser melhor debatido.

O presidente da Associação Sergipana dos Produtores Rurais, Ailton Santos, lamentou a ausência de representantes do governo, especialmente da Emdagro, e disse que tanto o órgão de assistência técnica do Estado quanto a Embrapa se omitiram no combate à mosca negra. Ailton disse que é triste ver uma praga dizimando pomares e deixando produtores em situação de miséria, se sentindo abandonados.

Os deputados Valmir Monteiro e Antônio dos Santos também lamentaram a ausência dos representantes da Emdagro. Segundo eles, a mosca negra virou sinônimo de desemprego no Sul de Sergipe. O vice-presidente da Casa, deputado Garibalde Mendonça, disse que a demora na entrega de correspondência prejudicou a participação da Emdagro e da Secretaria de Estado da Agricultura no debate na Alese.

O deputado Venâncio Fonseca reiterou a posição dos colegas e afirmou que o governo do Estado não dá a menor atenção para a citricultura. Segundo o parlamentar, as pragas e a omissão das autoridades produziram danos na economia dos municípios que produzem citros, a exemplo de Boquim, que teve momentos de pujança econômica e hoje sofre com a decadência da cultura.